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Cardiologia: Entrevista com o Dr. Hipólito Reis na Rádio Renascença

Maio foi o mês dedicado à saúde do coração e com o objectivo de alertar a população para as doenças cardiovasculares e para informar sobre a sua prevenção, o Hospital de Santa Maria – Porto lançou uma campanha de sensibilização em colaboração com a Rádio Renascença, que foi ouvida em todo o país.

Acompanhando essa campanha, o Dr. Hipólito Reis foi entrevistado no programa “Nunca é Tarde”, pela apresentadora Sónia Santos, numa conversa onde foram abordados os temas dos riscos e sintomas das principais doenças cardiovasculares, a sua prevenção e também os cuidados que os doentes cardíacos devem ter, como grupo de risco, neste período de pandemia Covid-19.

Ouça a entrevista aqui ou leia o texto na íntegra:

 

Uma conversa dirigida ao coração da população – aprender a valorizar as queixas e a procurar a ajuda médica atempadamente.

 

1) As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em todo o mundo. Porque é que isso se verifica, principalmente nos países industrializados?

Serem a primeira causa de morte está relacionado com a doença de um órgão ao qual é exigido um trabalho contínuo, altamente especializado, ao longo de toda a vida (> 100.000 batimentos/dia; 4-5 L/min.). A ligação aos países industrializados deve-se ao estilo de vida que as pessoas adotam, com comportamentos de vida errados (stress mal gerido, sedentarismo, obesidade) que juntamente com outros fatores de risco (hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes mellitus), levam à acumulação de gordura nas paredes das artérias (aterosclerose), provocando a obstrução das coronárias (artérias que irrigam o coração). Esta situação torna o coração vulnerável a arritmias potencialmente fatais (risco de morte súbita) ou ao desenvolvimento de doença do músculo com incapacidade de assegurar um normal bombeamento do sangue (insuficiência cardíaca).

 

2) Quais são as primeiras queixas de doença cardíaca?

As queixas às quais as pessoas devem estar alertadas são, essencialmente, a dor no peito (angina), que é frequentemente em aperto ou em ardência, localizada no centro do tórax ou ao lado esquerdo (pode, também, surgir na região abdominal alta, estender-se para os braços (+ o esquerdo), para o pescoço (nomeadamente, para a mandíbula) ou para as costas; pode desencadear-se pelo esforço ou stress emocional mas pode ocorrer mesmo em repouso; associa-se por vezes a queixas como vómitos, enjoos e suores abundantes.

Outras queixas a valorizar quer associadas quer significando o mesmo que a dor no peito (apresentação menos típica), são o aparecimento do cansaço acentuado, a falta de ar, palpitações (sensação de irregularidade do batimento do coração), e até o desmaio (síncope) que pode indicar uma arritmia grave.

 

3) A doença cardíaca afeta de igual forma os homens e as mulheres?

Podemos dizer que a prevalência é maior no homem pois as mulheres estão relativamente protegidas até à menopausa (níveis hormonais de estrogéneos).

2 questões importantes a referir:

– tem vindo a aumentar a prevalência nas mulheres o que se relaciona com a transformação dos hábitos de vida, que leva aos tais comportamentos de risco como são o stress, o sedentarismo, o excesso de peso (reflete uma alimentação incorreta e a falta de exercício) e muito, principalmente, o tabagismo! (está a aumentar na população feminina e a iniciar-se numa idade muito precoce);

após a menopausa, existe uma modificação desta situação e observa-se, mesmo uma maior mortalidade na mulher por esta doença; reconhece-se que na mulher a doença tem uma apresentação mais frequentemente atípica – a dor pode ser ser substituída pelas queixas de cansaço, sensação de fraqueza, falta de ar, etc, ; portanto a doença é subdiagnosticada e por vezes menos adequadamente tratada.

 

4) Quais as patologias mais frequentes relacionadas com o coração?

Existem algumas doenças frequentes para além da doença das coronárias e às quais nós muitas vezes apelidamos de epidemias – são exemplos:

– a insuficiência cardíaca (que pode resultar, também, da doença coronárias e surgir na sequência de um enfarte / tem muitas outras causas e uma delas é a possibilidade de ser afetada por uma infeção vírica);

– a fibrilhação auricular – a arritmia cardíaca mantida mais frequente na nossa prática clínica (está relacionada com a desorganização da atividade elétrica das aurículas levando ao compromisso da função de bomba mas também à possibilidade de formação de coágulos que pode resultar em AVC);

– a estenose (aperto) da válvula aórtica (principal válvula do coração) e que obriga em muitos casos à sua substituição (esta situação está nitidamente relacionada com o aumento da esperança de vida da população).

 

5) Relativamente ao contexto de pandemia COVID-19 em que vivemos, quais são os conselhos que dá a quem sofre de doença cardiovascular? Quais os riscos associados a quem tem patologias do coração e a COVID-19?

Os conselhos principais são:

– estar atento aos seus sintomas e sempre que haja dúvidas entrar em contacto com o seu médico (vimos nesta última fase a importância do papel do médico de saúde geral e familiar como principal interlocutor com a população;

cumprir a medicação habitual;

– seguir as indicações da Direção Geral da Saúde que tem tido um papel muito importante no esclarecimento das medidas a adotar em relação a uma doença que fomos conhecendo muito rapidamente, com a necessidade de ajustes contínuos.

Muito importante, também, é não hesitar em ligar ao 112 ou à Saúde 24, ou  a recorrer ao SU sempre que a situação se justifique;

o medo fez com as pessoas chegassem mais tarde o que tem implicações em termos de possibilidade da ocorrência de morte súbita ou no agravamento, por vezes irreversível, da capacidade de bombear do coração – insuficiência cardíaca – tempo é miocárdio!

 

6) O que podemos fazer para ter um coração saudável?

Podemos fazer muito pelo nosso coração e de facto a melhor forma de procedermos é apostar na prevenção:

– o exercício regular (+/- 30 min., 5Xsemana), por vezes adaptado à condição individual;

alimentação cuidada, com boa seleção dos alimentos (dieta mediterrânica), indo ao encontro do peso ideal (calculado pelo índice de massa corporal = peso a dividir pela altura X 2): < 25 kg/m2;

hidratação abundante (com alguma reserva nas situações em que já doença – insuficiência cardíaca);

respeitar uma boa higiene do sono!

NÃO FUMAR!!! (um dos maiores riscos para esta doença).

A estes cuidados devemos associar a vigilância clínica que passa pela consulta com o MSF (mais importante se existir doença prematura das coronárias nos familiares diretos (no homem com idades inferior a 55 anos e na mulheres inferior a 65 anos), alguns exames e análises (colesterol; açúcar; etc.) para detetar precocemente as alterações e permitir o tratamento dirigido ou a orientação para a consulta da especialidade.