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COVID-19 e diabetes

De acordo com as últimas estimativas globais da International Diabetes Federation (IDF), em 2019 haveria 463 milhões de pessoas com diabetes. Estima-se que, em 2045, 700 milhões de indivíduos venham a ter a doença.

A diabetes, pelas complicações que lhe estão associadas, nomeadamente cardiovasculares, é uma das principais causas de morbilidade e mortalidade a nível global, estimando-se que tenha sido responsável por 4,2 milhões de mortes no mundo em 2019.

Em Portugal, os dados mais recentes indicam que a diabetes afeta 9,9% da população entre os 25 e os 74 anos e que, adicionalmente, 16% da população tem pré-diabetes.

A doença causada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2, conhecida como COVID-19, é uma emergência de saúde pública, tendo sido declarada uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde(OMS) a 11 de março de 2020. À data de elaboração deste texto, mais de 52 milhões de pessoas em todo o mundo foram infetadas pelo novo coronavírus, tendo a pandemia sido já responsável por pelo menos 1,295 milhões de mortes. A COVID-19 pode ter como manifestações desde uma ligeira infeção respiratória aguda até uma pneumonia grave com insuficiência respiratória, síndrome de dificuldade respiratória aguda e choque séptico. Além de pneumonia, o SARS-CoV-2 pode causar lesões noutros órgãos, como o coração, o fígado e os rins.

Assim, a COVID-19 e a diabetes são hoje duas pandemias que se cruzam, com consequente grande impacto para a saúde pública global.

Não há dados suficientes que demonstrem que as pessoas com diabetes têm maior probabilidade de contrair COVID-19 do que a população em geral. Contudo, é reconhecido que a diabetes se associa a formas mais graves e com pior prognóstico de COVID-19, sendo um fator de risco para admissão em cuidados intensivos, necessidade de ventilação invasiva e morte.

A maioria dos casos graves e fatais de COVID-19 ocorre em indivíduos idosos e com comorbilidades associadas, como a hipertensão arterial, diabetes, obesidade, doença cardiovascular, doença pulmonar crónica, cancro e doença renal crónica. Estudos epidemiológicos mostram que a diabetes é a segunda comorbilidade mais associada à COVID-19, a seguir à hipertensão arterial. Além do pior prognóstico conferido pela diabetes por si só, já observado em pandemias virais passadas, importa referir que os indivíduos com diabetes têm uma elevada prevalência de doença cardiovascular, obesidade e de hipertensão, o que os torna particularmente suscetíveis a formas graves da doença.

Por outro lado, sabe-se que a diabetes descompensada está ligada a um aumento do risco de hospitalização e a uma maior gravidade das pneumonias, pelo que se torna de grande importância a otimização do controlo glicémico na pessoa com diabetes. A redução do acesso a cuidados de saúde imposta pelo confinamento, bem como a redução da atividade física e o isolamento são fatores que poderão ter um impacto particularmente negativo nesta população.  É importante que os indivíduos com diabetes mantenham acesso a cuidados de saúde que permitam manter não só um bom controlo dos seus níveis de glicemia, como também dos outros fatores de risco cardiovascular, nomeadamente da tensão arterial e do colesterol.

Em caso de infeção por SARS-CoV-2, é muito importante que a pessoa diabética reforce as chamadas “medidas dos dias de doença”, nomeadamente no que diz respeito ao cumprimento da medicação, avaliação frequente da glicemia (e, quando indicado, dos corpos cetónicos), hidratação e alimentação adequadas e verificação da temperatura corporal. É necessário que conheçam os sinais de alerta que devem motivar o acesso a cuidados médicos urgentes, não só aos associados à COVID-19 que se aplicam à população em geral, mas particularmente àqueles ligados à descompensação grave da diabetes, nomeadamente náuseas e vómitos persistentes ou valores de glicemia que se mantêm muito elevados. É ainda reconhecido que a COVID-19 contribui para o agravamento do controlo glicémico em doentes com diabetes, aparentemente mais do que a hiperglicemia de stress associada a outras infeções. Este facto poderá estar relacionado com uma possível lesão direta provocada pelo vírus nas células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina (as células beta).

Concluindo, a diabetes e a COVID-19 são duas pandemias que se relacionam de forma bidirecional: por um lado, a diabetes associa-se a formas mais graves e com pior prognóstico de COVID-19; por outro lado a COVID-19 pode associar-se a complicações metabólicas no doente diabético.

É, por isso, fundamental que os indivíduos diabéticos mantenham acesso a cuidados de saúde que permitam não só otimizar o controlo da sua doença e das comorbilidades associadas à diabetes, como também identificar precocemente uma possível deterioração clínica.

 

 

Dra. Maria João Matos

Endocrinologista