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Doença de Alzheimer – um alerta para a prevenção

Como profissional de saúde preocupada com o aumento do número de casos de demência que tenho avaliado em consultas, muitos deles já em fases avançadas da doença, quando já pouco há a fazer, cabe-me alertar para esta condição, especialmente neste mês em que se celebrou o Dia Mundial da Doença de Alzheimer.

É cada vez mais importante que haja uma preocupação global quanto à etiologia, diagnóstico e tratamento precoces e adequados, permitindo que os pacientes possam manter-se ativos enquanto possível, já que isso melhora a sua qualidade de vida. Acima de tudo, importa informar e lutar pela prevenção destas doenças.

A Doença de Alzheimer é, efetivamente, a mais frequente, e engloba no seu conceito outras demências como a Demência Frontotemporal, de que a “afasia primária progressiva” e a “demência do lobo frontal” são aspetos major, ambos tendo como consequência uma perda importante de memória. Estes tipos de demência, embora façam parte do mesmo grupo, têm algumas características diferentes e a Demência Frontotemporal pode manifestar-se durante alguns anos apenas como uma afasia (perda da fala), e só mais tarde se manifestar como uma demência progressiva.

Outras demências podem ser confundidas com a Doença de Alzheimer, apesar de terem algumas características de evolução da sintomatologia diferentes. É o caso da Demência de Corpos de Lewy, porque os atingidos habitualmente têm défices nas funções executivas mais acentuados desde o início, ao contrário do que acontece na demência de Alzheimer.

A Demência Vascular é proporcionalmente a segunda mais importante e significativa, sobretudo por ter como base uma situação tratável e por isso ser uma forma de demência que poderia ser evitada, se houvesse um bom controle da tensão arterial, e de outros fatores de risco vascular como os erros alimentares, entre os quais chamo especial atenção para o teor de sal, gordura e açúcar da nossa alimentação.

A hipertensão é a causa mais frequente da Demência Vascular. Por isso quer o diagnóstico precoce da demência, quer a correção dos fatores de risco são importantes na prevenção e na progressão desta e das outras formas de demência, porque muitas vezes estes fatores de risco acumulam-se.

Outros tipos de demência com menos impacto, mas também muito importantes, são a Demência Pós-Traumática, que resulta de concussões repetidas e traumatismos de crânio fechados dos atletas, as demências de causa infecciosa, como a da Sífilis e da SIDA e a Demência de Creutzfeldt Jacob, de causa desconhecida e sem tratamento, ou melhor, só com tratamento paliativo.

Em plena fase de pandemia de Covid-19, não posso de deixar de alertar para as consequências gravosas que o isolamento dos pacientes atingidos possa ter. Está comprovado que este isolamento contribui para um avanço da doença e, simultaneamente, é causador de depressão que pode ser um fator impulsionador de demência. A própria infeção Covid-19, pelas alterações neurológicas que pode provocar, pode ter impacto no desenvolvimento de demência, embora ainda não existam estudos realizados.

Também importa referir as consequências induzidas pelas alterações climáticas no nosso organismo e no ambiente. Continuamos a destruir e a não preservar as nossas florestas e a ter pouca preocupação com os efeitos secundários dos tóxicos no meio ambiente e nos produtos de que nos alimentamos. Temos também a contaminação ambiental induzida pelo parasitismo gastrointestinal, dos pequenos ruminantes, assim como da água por produtos aplicados na agricultura ou pelos esgotos de algumas empresas. A Peste Suína que Portugal enfrentou no passado constitui uma ameaça com impacto sanitário e económico significativo e que pode regressar. Por outro lado, também não tem havido formação para realçar a importância de que a água é um bem esgotável e deve ser consumida com moderação e como um bem essencial para a nossa sobrevivência.

Também nas cidades, apesar do maior cuidado de grande parte das instituições na higienização dos espaços comuns, e talvez por falta de educação cívica, continuamos a ter lixo mal colocado, fora dos contentores, e a ver pessoas a alimentar na rua pássaros e gatos, ignorando que também estão a alimentar ratos de esgoto que podem transmitir-nos infeções graves e mesmo outras pandemias, como já aconteceu no passado.

Não posso terminar sem alertar para a importância da atividade física adequada a cada situação, a convivência, a socialização, e outras atividades lúdicas como a música, a dança e o teatro, que ajudam a diminuir – e podem mesmo compensar – quadros depressivos associados que complicam muitas destas demências ou podem mesmo mimetizá-las, como é o caso da pseudodemência.

 

 

Dra. Edite Rio

Neurologista